Ilhas pra lá, ilhas pra cá, ilhas aqui, ilhas acolá.
Thursday, November 22nd, 2007As ilhas tailandesas, um dos sete nirvanas do mergulho, foram recentemente tombadas e são agora protegidas pela UNESCO e pela FISSA (Federação Interplanetária de Seres Sub-Aquáticos). No entanto, UNESCO parece nome de bolacha, por isso não botamos muita fé no seu poderio de proteção (Três vivas para a FISSA!). Por essas e outras, me senti turisticamente obrigado a participar de algumas expedições submarinas e tratei de achar o curso de mergulho mais barato da galáxia.
Encontrei a Crystal Dive em Koh Tao.
A Crystal Dive é uma escola/pousada/bar/restaurante/locadora de motos/cybercafe que faz um curso oficial, com acomodação inclusa, pela metade do preço de qualquer outra biboca da região. Ao fazer a matricula, fui informado da falta de quartos na sede da escola, e se não seria problema ficar num chalé na praia seguinte; um pouco mais distante, mas eu teria um chalé so pra mim.
De graça? Não sendo debaixo d’água, é tudo lucro. Pulei na caçamba da picape e 5 minutos depois, me vi na sacada do chalézinho, vendo o sol se pôr numa daquelas praias lindas que sempre compõem o cenário de fimes com final feliz.
Na manhã seguinte, vídeos didáticos nos ensinaram que não se respira debaixo d’água, objetos pesam menos dentro d’água do que fora e que a parte prática, só se aprende na prática.
Para tanto, pegue o equipamento, monte e desmonte cinco vezes e mergulhe. Na piscina. Horas na piscina. Horas ajoelhado na piscina, internalizando os mandamentos sagrados do mergulho.
No dia seguinte, mergulho em mar aberto. Embarcamos num antigo barco de pesca tailandês de dois andares, convertido para barco de mergulho. Basicamente, retiraram as redes e adicionaram tanques de oxigênio. Vale mencionar que barcos de pesca tailandês tem o convês em forma de cumbuca e que assim que o barco saiu, o tempo virou.
Mais de 60 alunos do mundo todo, berrando em pelo menos 5 línguas diferentes, 120 tanques de oxigênio, pés de pato, máscaras, pesos, roupas de neoprene e coletes. Tudo deslizando por um convês em forma de cumbuca, a mercê de um mar tempestuoso.
E eu, sem meu skate…
Fizemos dois mergulhos, vimos a maioria dos peixes que eu já tinha visto fazendo snorkel e voltamos pra Crystal Dive, devidamente batidos, sacodidos e doloridos.
Á noite tivemos a baladinha de “formatura” num barzinho beira-mar. Musica boa, caipirinha com açucar mascavo e malabares de fogo nos entreteram até alguma hora da madrugada. Quando voltei ao meu conjunto de chalés, encontrei Dae, the barman from Burma, dedilhando um violão. Rapidamente, saquei da minha gaita em LA e fizemos som até amanhecer.
Poderia ter ido embora no dia seguinte, como fez a maioria das vítimas do “half-pipe tailandês”, mas o caso é que gostei muito de Koh Tao. E nada melhor que um chalé de frente pro mar, de graça. Então, mais um curso de mergulho na Crystal Dive. Dessa vez, o Advanced Open Water Course, mergulho noturno e o Nitrox.
É toda a diferença do mundo. A 12 metros de profundidade (mergulho inicial) você não vê muita coisa diferente, nem fica com “nitrogen narcosis” (a sensação de ter tomado uma branquinha antes de mergulhar). Isso só acontece a 28 metros.
Ah…mas fica meio chapado mesmo, ou é só estorinha?
Varia.
Vai do tipo de chapado que você é. Bêbado egocêntrico quer tirar a máscara, fingir que é peixe, abraçar moréia… bêbado triste chora e alaga a máscara, pega alga pra assoar o nariz, etc.
Eu sou tranquilo. Fico mais calmo e feliz. Basta dizer que quando vimos os tubarões, eu fui o único a sair nadando atrás pra ver melhor. Sempre bom ter um instrutor por perto pra te dar um “croc” nessas situações.
E é tubarão, arraias, polvinhos, angel fish, trigger fish, dragon fish, demon fish, big fish que vem te olhar, little fish que fica te mordiscando, a Dory, o Nemo, os amigos do Nemo, o bairro todo do Nemo.
E á noite saem outros.
Fabuloso.
E claro, o Nitrox; curso que te ensina a mergulhar por mais tempo usando uma mistura refinada de oxigênio, nitrogênio, uma pitada de hélio, limão e um shot de tequila. Evoluímos de um pesqueiro abarrotado para uma lancha lotada. O balanço do mar fica maior num barco menor, então além de equipamento rolando, adiciona-se a probabilidade da popa do barco bater na sua cabeça na saída do mergulho, e claro, as já familiares cotoveladas, cabeçadas e saltos com joelhada no vácuo. Só privilégios.
Deixei Koh Tao depois de 10 dias, 8 mergulhos e pelo menos 30 cortes e contusões, mas o tamanho do sorriso garante que eu volto. Ah, se volto.